segunda-feira, 1 de março de 2010
Cantada Infalível
domingo, 24 de janeiro de 2010
MOSTROS
Lugosi está morto, e eu também. O que resta dele está apodrecendo em algum lugar num caixão de pinho, enquanto eu tenho a oportunidade de estar sentado aqui no terraço, apreciando minha bebida e olhando para você. Corrija-me se eu estiver sendo presunçoso, mas acho que tive um fim melhor que o dele.
Só de olhar, posso dizer que você não está entendendo. Claro que não — estamos numa época cínica e racional, e você não vai acreditar que eu sou um defunto só porque estou dizendo. Há um século isso seria diferente — pelo menos da última vez que tive essa conversa com alguém, foi bem diferente — mas esta é a era dos fatos. E os fatos dizem que cadáveres não se movem, não andam e não falam. Sinto muito, minha querida, mas tenho uma surpresa para você: este cadáver aqui o faz.
Então se sente. Por favor, eu insisto que você fique confortável. Sirva-se de algo para beber, de preferência da jarra á esquerda — a da direita possui um sabor excêntrico. Esta será uma longa noite, e creio que você vai precisar de uma bebida forte. Ou até mesmo duas. Nas próximas horas, vou explicar-
lhe, com detalhes insuportáveis, porque tudo o que você pensa e sabe sobre a vida e a morte está errada. Em outras palavras, você não sabe coisa alguma sobre a maneira como o mundo realmente funciona, e eu vou abrir os seus olhos. Mas temo, minha querida, que você não vai gostar do que vai ver.
O Que Sou
Antes de prosseguir, permita-me dizer que você está tendo uma oportunidade única.
Minha espécie não fala sobre si mesma para a sua — nem agora e,
na maior parte das vezes, nunca.
Possamos os últimos cinco séculos preparando a cortina e a ribalta, que chamamo
s “A Máscara”, para esconder de vocês o verdadeiro espetáculo. Mas, no fim, tudo se resume a um simples e único fato: nós, vampiros, não queremos que vocês, mortais, saibam que estamos por aqui. E a mesma razão pela qual os lobos não querem que os carneiros saibam que eles
estão por perto. Isso torna o nosso trabalho muito mais fácil. Assim, ainda que sejamos realmente dotados dos caninos afiados com os quais os melodramas
e filmes baratos nos estigmatizaram, vocês não os verão a menos que decidamos mostrá-los. Como agora.
Você está pálida, minha querida. Isso é ruim se nós queremos ser vistos mais tarde.
Permita-me cuidar de nossa palidez. No entanto, devo admitir que esteja desapontado pelo fato de você estar tão perturbada com a idéia de eu ser um vampiro. Respire fundo e tente se controlar, se puder. Verdade seja dita, temo que este seja o menor dos impactos que a aguardam esta noite. Por favor, não desperdice seu tempo tentando elaborar uma explicação racional ou científica, porque ela não existe.
Eu sou simplesmente o que sou. O que muitos e muitos de nós somos — e somos até demais, segundo algumas contagens.
Maldição, você e mesmo tola a esse ponto? Fique sentada. Eu disse sente!... Agora veja.
Calma, pare de gritar. Ninguém virá salvá-la e ninguém vai chamar a policia — não neste edifício. Vizinhos discretos é uma benção para pessoas na minha situação. É realmente vitoriana a maneira como eles ignoram qualquer coisa que não esteja claramente diante de seus olhos.
Então, finalmente conseguiu a sua prova. Agora você acredita em mim? Sim, é sangue na jarra da direita, que ao ser servido gelado como a outra, acaba por perder muito de seu sabor.
Você pode beber dele se quiser, mas não, eu não recomendo. Você não está acostumada a apreciar essas coisas, pelo menos não ainda. Não se precipite tentando adivinhar minhas intenções, minha cara. Se eu fosse agir de acordo com seu querido clichê, você já estaria morta. Afinal, eu sou um predador, e tanto você quanto toda a sua espécie é minhas presas....
Continua...
Chega de vampiros emos...
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
Fantasma do Passado..
Enquanto chove na RMR...
A chuva na infância
Quando eu me sentia triste
A chuva da arrogância
Nos faz crer que o nada existe
A chuva da adolescência
Me negando os raios solares
A chuva da carência
Destruindo bairros e lares
A chuva do desespero
Inunda um rosto entristecido
A chuva do candeerio
Que abandona um povo sofrido
A chuva da vida adulta
Acabando com os nossos sonhos
A chuva que não se escuta
Nos olhares mais risonhos
A chuva do perecer
Faz não vermos mais a estrada
A chuva do envelhecer
Reduzindo o amor a nada
Cristiano Cabral Marques
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
Detalhes e micro-preview do novo romance de Leonel Caldela
“É fantasia medieval, mas fora do mundo de Arton. Não, eu não abandonei nem abandonarei Tormenta. Só estou escrevendo em um mundo próprio”, comentou o autor sobre o novo romance meses atrás. “Comparando com a trilogia, é bem menos fantástico, mais “realista”. A magia, por exemplo, pode ou não existir… Tem quem acredite”.
“O mundo não é tão detalhado ou extenso quanto Arton. Não tem objetivo de ser cenário de RPG. Existe como palco para as histórias”, disse sobre o mundo de seu novo livro. “O livro, como é de praxe, tem guerra, paredes de escudos, uns mistérios, uns milagres, umas mortes e bastante escatologia e sadismo”. (Ps. eu adoro tudo isso *_*)
Sobre o enredo, Leonel soltou algumas dicas: “Uma Igreja toda-poderosa domina a terra conhecida. A Igreja tem seus generais, cardeais e uma espécie de papisa”, e continua, “Existe um passado extenso e parcialmente conhecido no mundo… Que o leitor vai ter de descobrir junto com os personagens”.
“Em um resumo ultra-simplista, o enredo gira em torno de uma guerra civil, duas profecias e um grande criminoso herege”.
Sobre a narrativa e os planos para o novo mundo, Caldela foi direto: “Narrador em primeira pessoa. Dois volumes. Planos para outra história no mesmo universo”.
“Ainda não tem data [de lançamento], mas as coisas estão se encaixando rápido. Já tem título, mas ainda não sabemos quando, onde e como revelar”, confidenciou o autor.
Para não deixar os leitores de mãos abanando, segue um pequeno preview do novo romance, ainda não revisado:
Os homens ao meu lado começaram a se mover, eu me movi junto, mantendo a parede de escudos. Eles gritavam e eu gritei também. As fileiras caminhavam contra nós, cheios de armas. Começamos a avançar. Minha respiração ficou rasa, na garganta, e o coração subiu para se juntar, tudo na garganta, eu notei que fazia uma expressão meio ridícula, mostrando os dentes, era puro medo. Meu pênis estava encolhido dentro das calças. Caminhamos em direção ao inimigo. De repente, eles correram para nós. Um estouro de boiada, saíram da formação, o que fazia sentido, pois estavam em número maior, vieram numa onda, firmamos os pés, eu não sabia se havia firmado direito, firmamos os pés para resistir à carga. Olhei para baixo, para ver os pés dos meus companheiros e confirmar se estava fazendo direito, e o choque, eles encontraram nossa parede, fui jogado para trás com o impacto, bati a cabeça no meu próprio escudo, vi preto por um instante. Ergui os olhos, ergui a espada, quase cortei meu companheiro, pedi desculpas sem notar como era ridículo, estava seguro, duas linhas na minha frente, mas a primeira linha já caía. Havia apenas um guerreiro entre eu e o soldado alto, de barba incipiente de três dias, que puxava uma espada gosmenta de vermelho, e se preparava para atacar de novo. Fiquei com muito medo daquele homem.
— Deus! Deus! — ele gritava.
Eu não sabia o que gritar.
Fonte: dot20
Ps. Leonel é foda!!! Viva a escatologia e sadismo!!! \o/\o/\o/\o/
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
Hora do Exercício – Escrever é Reescrever
Em primeiro lugar “a César o que é de César”: quem disse “escrever é reescrever” – ou pelo menos o autor do texto onde li esta frase pela primeira vez – foi Stephen King, não eu.
Enfim, “escrever é reescrever” e você vai se lembrar desta frase para o resto da vida, ou deveria.
A maioria dos escritores principiantes (como se eu não fosse) – e talvez este seja um dos fatores que dividem “os meninos dos homens”, digamos assim – acha que escrever é o simples ato de arrancar uma idéia das profundezas do cérebro, jogar no papel e mostrar para o primeiro infeliz com boa vontade que aparecer pela frente (eu faço isso...). O que, nos tempos modernos em que vivemos, significa mandar por e-mail para todos os seus amigos, enviar para um grupo de escritores amadores no Orkut (ou em fóruns e listas de discussão) ou postar em um blog bem parecido com este aqui.
Sinto muito, meninos e meninas, mas não é assim que a coisa funciona. Ou melhor: é assim que a coisa funciona, mas não é como deveria funcionar.
Quando se começa a escrever uma história, a coisa flui de uma maneira cru. Não é o momento para conter idéias, se preocupar com estrutura ou erros de português. É vomitar no papel mesmo. Só que este “vômito” não é sua história. É algo bruto que precisa ser lapidado.
Com a idéia no papel é hora de esquecer que ela existe. Feche o arquivo e ignore-o por uns dias. Há grandes chances de que você se empolgue e queira fazer uma primeira revisão logo após ter escrito sua primeira versão, mas tente se segurar. Nessa hora a gente ainda está apaixonado demais pelas próprias idéias para ter a frieza e o olhar clínico necessários para diagnosticar seus defeitos.
Passado este tempo, retome a história. Agora sim é hora de arrumar os erros de português e organizar a estrutura dos parágrafos. É normal acrescentar novas passagens, aperfeiçoar diálogos, inserir novas idéias e plantar plots que poderão se desenvolver mais para a frente. Feito isso, feche o arquivo e esqueça-o de novo.
Repita o processo alguns dias depois e quantas vezes forem necessárias para que você possa olhar seu texto e ter certeza de que ali está algo bem próximo do ideal. Não acho que exista uma fórmula capaz de indicar uma quantidade exata de revisões. Varia de obra para obra, de autor para autor.
Como nenhuma dica funciona sem um exemplo prático, aqui vai algo:
- Primeira Versão
Dessa vez não sei o que aconteceu. Mas não foi comoquando entrei na arca.Havia um caminho de pedras. Isso eu podia ver. Mas não havia placas de sinalização nem casas na beira da estrada. Também não vi plantações ou bichos correndo pra lá e pra cá. A chuva tinha voltado mas, naquela altura do campeonato já não fazia mais diferença mesmo. Minhas roupas já estavam mais do que ensopadas, cortesia di mergulho involuntário pouco tempo antes. E o pior é que eu tinha fome.
- Segunda Versão
Dessa vez não sei o que aconteceu. Mas não foi como quando entrei na arca, disso tenho certeza. Nada de sensação de estar caindo. Nada de luzes. Nada de nada, para falar a verdade. Acho que o que aconteceu quando entrei no caldeirão foi que apaguei.
Acordar foi uma experiência gradual. Primeiro um zunido bem lá no fundo. Depois a percepção de estar deitado, a sensação de gotas caindo na minha cara e finalmente a constatação de que estava deitado na grama à beira de uma estrada de terra enlameada. A colher de ferro firme na mão direita e o medalhão vagabundo pendurado no pescoço.E na chuva. E ensopado.
Onde, exatamente? Ótima pergunta.
Não havia nenhuma placas indicando qualquer caminho. nem casas por perto. Também não vi plantações ou bichos correndo pra lá e pra cá. A primeira coisa que pensei é que em poucos minutos algum grupo de bandidos ou monstros ia aparecer do nada pelo simples fato de eu estar no meio do caminho de não sei onde para lugar nenhum. Afinal, isso é o que a gente ouve falar que acontece com quem se mete nesse tipo de idiotice. Mas para a minha felicidade e para a infelicidade de quem ouve essa parte da história, nada demais aconteceu. Não naquele exato momento pelo menos.
- Terceira Versão
Dessa vez não sei o que aconteceu. Mas não foi como quando entrei na arca, disso tenho certeza. Nada de sensação de estar caindo. Nada de luzes. Nada de nada, para falar a verdade. Acho que o que aconteceu quando entrei no caldeirão foi que apaguei.
Acordar foi uma experiência gradual. Primeiro um zunido bem lá no fundo. Depois a percepção de estar deitado, a sensação de gotas caindo na minha cara e finalmente a constatação de que estava deitado na grama à beira de uma estrada de terra enlameada. A colher de ferro firme na mão direita e o medalhão vagabundo pendurado no pescoço. E na chuva.
Onde, exatamente? Ótima pergunta.
Não havia nenhuma placa indicando qualquer direção ou local. Nem casas por perto. Também não vi plantações ou bichos correndo pra lá e pra cá. A primeira coisa que passou pela minha cabeça foi algo que ouvi uma vez em uma conversa do meu pai com um taverneiro em Altrim: se você se vê sozinho em uma estrada desconhecida, é só uma questão de tempo até que meia dúzia de monstros bizarros apareçam literalmente do nada para te atacar, roubar, destroçar e mais uma porção de coisas desaconselháveis para qualquer pessoa que pretenda ter uma vida longa e saudável. É como uma daquelas leis místicas ou divinas que regem o mundo e foram criadas sabe-se lá por que ou por quem.
- Quarta Versão
Dessa vez não sei o que aconteceu. Mas não foi como quando entrei na arca, disso tenho certeza. Nada de sensação de estar caindo. Nada de luzes. Nada de nada, para falar a verdade. Acho que o que aconteceu quando entrei no caldeirão foi que apaguei.
Acordar foi uma experiência gradual. Primeiro um zunido bem lá no fundo. Depois a percepção de estar deitado, a sensação de gotas caindo na minha cara e finalmente a constatação de que estava deitado na grama à beira de uma estrada de terra enlameada. A colher de ferro firme na mão direita e o medalhão vagabundo pendurado no pescoço. E na chuva.
Onde em Arton, exatamente? Ótima pergunta. Não havia nenhuma placa indicando qualquer direção ou local. Nem casas por perto. Também não vi plantações ou bichos correndo pra lá e pra cá.
A primeira coisa que passou pela minha cabeça foi algo que ouvi uma vez em uma conversa do meu pai com um taverneiro em Altrim: se você se vê sozinho em uma estrada desconhecida, é só uma questão de tempo até que meia dúzia de monstros bizarros apareçam literalmente do nada para te atacar, roubar, destroçar e mais uma porção de coisas desaconselháveis para qualquer pessoa que pretenda ter uma vida longa e saudável. É como uma daquelas leis místicas ou divinas que regem o mundo e foram criadas sabe-se lá por que ou por quem.
Percebam como o texto vai do caos da primeira versão e passa por mudanças sutis de termos, idéias e quebras de parágrafos até chegar à versão definitiva.
Se você acha difícil adquirir o hábito da revisão, aqui vai uma dica: compre um caderno, uma caneta (lápis, nunca) e passe a usá-los na hora de escrver a primeira versão de seu roteiro ou conto. Isso vai obrigá-lo a reler o texto na hora de passar para o computador, garantindo ao menos uma revisão.
O que já é muito bom, mas ainda está longe do ideal.
PS. o texto deste artigo foi revisado cinco vezes, antes de ser postado.;)
Ate a proxima jovens!
